sábado, 31 de março de 2012

Tempo

Há quanto tempo não nos falamos, as horas passam rápido demais, quase sem tempo de notarmos que o tempo se vai.
Num instante tudo parece nublado e no seguinte o céu se abre dentro da sua cabeça e você se pergunta, porque, praque, praonde?
E a gente continua indo adiante, avante.
Um rumor instável se aproxima, dissipo-o com firmeza e a cabeça lateja.
Na esquerda um bailado risca meu pensamento,
e rio comigo mesma.
A práxis chama, me enredo novamente em meio a dilemas.
Nós se atam e se desatam.
Já não uso as mãos,
Cadê o dia, a noite, o sol, a lua,
São como porta-retratos expostos ao alcance dos olhos
mas longe do coração.
As flores, estas sim ao alcance,
me levam a andar pelo jardim.
Espio como pela luneta uma outra vida, distante.
Um caleidoscópio gira minhas emoções
e eu as amparo com minhas mãos.
(Marcia Araujo).

Grupo

Antes que o tempo diminua a força deste momento resolvi postar.
Postar a força desta turma.
Celebrar sua diversidade e sua igualdade.
Postar meu prazer de cada dia.
Registrar que sem cada um de vocês a turma 2010 não seria.

Queria ser poeta e escrever belas palavras.
Queria tocar seus corações como me sinto tocada no meu.
Queria dizer a cada um a importância que tem na minha trajetória.
Queria dizer que vocês fazem parte da minha história.

Antes eu não era quase ninguém.
Antes eu não conhecia o mundo.
Antes eu tinha mais medos do que tenho agora.
Antes eu não tinha vocês.

Hoje eu tenho um pouco de cada um comigo.
Hoje eu choro e rio.
Hoje eu brinco sem freio.
Hoje eu tenho um amigo.

Com vocês aprendi a confiar.
Com vocês aprendi a errar.
Aprendi a ser gente.
Aprendi a amar.

Não troco nenhum por nada.
Com seus gestos,
com suas palavras,
aprendo onde estou,
a saber como sou.

E agora para fechar
um imenso beijo vou postar.
Carregado de vida, de troca, de paixão e de pulsão.
2010, obrigada!

Dedos

Já parou para observar seus dedos?
Percebeu nesse dia que sua unha era macho, o contorno perfeito e ela amoldada ao dedo que saía da mão como um prolongamento?
Eu poderia não reconhecer meus dedos de repente.
Se abaixar algum tirando-o do alinhamento, a unha rosada iluminada pela luz do abajur se torna mais feminina, mas o amarelado do contorno dela na ponta superior que se desprende do dedo só tem de belo a forma.
Eu teimo em retê-la, lixo, limpo por baixo com o pauzinho de laranjeira, mas ela teima em amarelar e com até ponderada imponência se arvora para fora do meu corpo.
Eu? Ah, eu não sei dar-lhes a liberdade que pedem, diminuo-as, acerto a forma, não as deixo crescerem, mas oculto um desejo de cobrí-las com outras artificiais, esteticamente perfeitas.
De tão limpas parecem brancas, se eu fizesse não as cobriria com esmalte para quando acendesse um cigarro admirá-las, e veria meus dedos diferentes, as longas unhas.
Imaginaria a mão de uma outra mulher, uma das outras que hospedo em mim.
Unhas delicadas, dedos expressivos, mãos firmes, frágil na aparência.
Não são mãos que trabalham a terra, já tão distantes da suavidade de quem ainda é capaz de fechar os olhos e alisar um travesseiro macio.
Fechei os olhos.
Abri-os dentro de mim.
Não vejo meu sangue, minhas grossas veias, os tubos que percorrem meu corpo.
Meus holofotes iluminam o invisível.
Como uma hospedeira abri as portas para toda gente.
Tem mulher magra, ossuda, essas têm dedos longos, unhas brancas e finas.
Suas extremidades são como molduras naturais ajustadas à carne sem sobras nas juntas, delicadas.
Parecem envoltas em voal, quando se movem não noto seus corpos, é sua sombra sem peso que atrai minha imaginação.
Hospedei também muitos meninos.
As vezes tomavam a minha voz, se faziam donos da hospedagem.
Habitaram comigo por longos períodos.
Suas unhas?
Ah, eram como se fossem unha e carne uma coisa só, não fazia diferença se estreitas ou largas, macho ou fêmea.
Mas um dia conheci um menino de dedos finos, mão longa, belíssimas unhas, nossa, que unhas, quase femininas.
Desses não hospedei, gostava quando me visitavam.
Sempre fui de receber inúmeros visitantes em minha pousada, alguns só de passagem, outros se instalaram por algum tempo.
Os meninos são mais brutos, não perdem tempo na hospedagem, é pequena de espaço para eles, preferem um mundo sem portas, sem janelas, camas sem donos, são egoístas.
Coabitam-se, sobem-se, pisoteiam-se.
Não, meninos não são para mim.
Gosto de meninas, meninas mulheres.
Mulheres comunicam-se com os olhos, mulheres se lêem em voz silenciosa.
Mulheres vivem dentro de si, habitam em muitos mundos.
Em cada uma delas existe um pedaço de mim.
São sutis, se tocam sem as mãos, as mãos são só suporte para as unhas.
E as outras, as outras mulheres?
Sou quase todas, prefiro as de firma delicadeza, as que não se deixam penetrar por todas.
Enriquecem meus momentos.
Gosto das vazias, das leves, das soltas, das intelectuais, das loucas, mas gosto mais mesmo daquelas que não se revelam todas porque recusam limitarem-se ao que já sabem de si. 
Estas são as que mais me interessam.
São todas as mulheres que sou.
(Marcia Araujo).