Já parou para observar seus dedos?
Percebeu nesse dia que sua unha era macho, o contorno perfeito e ela amoldada ao dedo que saía da mão como um prolongamento?
Eu poderia não reconhecer meus dedos de repente.
Se abaixar algum tirando-o do alinhamento, a unha rosada iluminada pela luz do abajur se torna mais feminina, mas o amarelado do contorno dela na ponta superior que se desprende do dedo só tem de belo a forma.
Eu teimo em retê-la, lixo, limpo por baixo com o pauzinho de laranjeira, mas ela teima em amarelar e com até ponderada imponência se arvora para fora do meu corpo.
Eu? Ah, eu não sei dar-lhes a liberdade que pedem, diminuo-as, acerto a forma, não as deixo crescerem, mas oculto um desejo de cobrí-las com outras artificiais, esteticamente perfeitas.
De tão limpas parecem brancas, se eu fizesse não as cobriria com esmalte para quando acendesse um cigarro admirá-las, e veria meus dedos diferentes, as longas unhas.
Imaginaria a mão de uma outra mulher, uma das outras que hospedo em mim.
Unhas delicadas, dedos expressivos, mãos firmes, frágil na aparência.
Não são mãos que trabalham a terra, já tão distantes da suavidade de quem ainda é capaz de fechar os olhos e alisar um travesseiro macio.
Fechei os olhos.
Abri-os dentro de mim.
Não vejo meu sangue, minhas grossas veias, os tubos que percorrem meu corpo.
Meus holofotes iluminam o invisível.
Como uma hospedeira abri as portas para toda gente.
Tem mulher magra, ossuda, essas têm dedos longos, unhas brancas e finas.
Suas extremidades são como molduras naturais ajustadas à carne sem sobras nas juntas, delicadas.
Parecem envoltas em voal, quando se movem não noto seus corpos, é sua sombra sem peso que atrai minha imaginação.
Hospedei também muitos meninos.
As vezes tomavam a minha voz, se faziam donos da hospedagem.
Habitaram comigo por longos períodos.
Suas unhas?
Ah, eram como se fossem unha e carne uma coisa só, não fazia diferença se estreitas ou largas, macho ou fêmea.
Mas um dia conheci um menino de dedos finos, mão longa, belíssimas unhas, nossa, que unhas, quase femininas.
Desses não hospedei, gostava quando me visitavam.
Sempre fui de receber inúmeros visitantes em minha pousada, alguns só de passagem, outros se instalaram por algum tempo.
Os meninos são mais brutos, não perdem tempo na hospedagem, é pequena de espaço para eles, preferem um mundo sem portas, sem janelas, camas sem donos, são egoístas.
Coabitam-se, sobem-se, pisoteiam-se.
Não, meninos não são para mim.
Gosto de meninas, meninas mulheres.
Mulheres comunicam-se com os olhos, mulheres se lêem em voz silenciosa.
Mulheres vivem dentro de si, habitam em muitos mundos.
Em cada uma delas existe um pedaço de mim.
São sutis, se tocam sem as mãos, as mãos são só suporte para as unhas.
E as outras, as outras mulheres?
Sou quase todas, prefiro as de firma delicadeza, as que não se deixam penetrar por todas.
Enriquecem meus momentos.
Gosto das vazias, das leves, das soltas, das intelectuais, das loucas, mas gosto mais mesmo daquelas que não se revelam todas porque recusam limitarem-se ao que já sabem de si.
Estas são as que mais me interessam.
São todas as mulheres que sou.
(Marcia Araujo).