terça-feira, 17 de julho de 2012

A noite fria

Asa ao vento
gorjeava o pássaro 
um lamento.

A noite gelada caía
roubando-lhe a alegria.

A luz do farol distante
sobre a pedra fria
um pescador refletia.

A lua mirando o espelho
de nada se apercebia.

Iemanjá encantada
conforme reza a lenda
aguardava a oferenda.
(Marcia Araujo)

sábado, 14 de julho de 2012

Sina

Carregado de sentimentos
acordou dormente
era ainda quente
o sonho do poeta
urgente.

Encolheu a mente
para espreguiçar o corpo
e não perder de novo
outro verso morno.

Esticou os braços
para alcançar o espaço
e deter o tempo
fascinante intento.

Um cheiro de café quente
inundara o ambiente
escaldando o dia
que já amanhecia.

E no jardim das idéias
adormecera o poeta 
sem se entregar a rotina
que lhe roubara a sina.
(Marcia Araujo)

Andrajo

Caminha sem salto
despida da alma
a identidade
cega e sem luz.

De um confronto cruel
entre as necessidades
nasceu de choque
a revel.

Não se sabe se forjada
ou se forjando a si.

Sabe-se somente que
constituiu-se pedaços
que agora se descolam
se descolando de si.

Em meio a romaria
que se lhe passa indiferente
um desapego arrefecido.

O grito que soa
da boca do louco
ecoa no seu coração.

Será dele a voz
vacilante
ou  um capricho
da multidão?
(Marcia Araujo)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Minha filha

Ecoa um sorriso
dentro de mim
que mexe comigo

Veio de fora
e me penetrou

Trouxe alegria
sentido de vida
família.

Revivi um momento
do ninho.

De dentro do quarto
ria
minha filha.
(Marcia Araujo)

Vã filosofia

Desfiz o mundo trilhado
refiz meu traço mutilado.

Incompleto de alma
segui na intuição.

Postulei em juízo
e dele abdiquei.

Criei asas e não voei
centenas de vezes capotei.

Roubei da sorte
minha autoria.

Fe-li-ci-da-de,
vã filosofia.
(Marcia Araujo)

terça-feira, 5 de junho de 2012

Silêncio

Um silencioso diálogo
descreve a pena no papel.

As árvores se curvam
mal agradecidas
por suas cabeleiras penduradas.

Um vento quente entra pela janela
embaralhando o juízo.

Nauseado pelo esforço
sem gozo o lápis gira
sem dizer nada ao papel.

Hoje não é dia...
o pensamento dorme.
(Marcia Araujo)

sábado, 5 de maio de 2012

O amor

A porta aberta exala
o azedume do perfume.
Variar de sonhos é bom.

Por entre a trincheira vazada
palavras grafadas
rodopiam sem som.

Entre lembranças e drogas
e sementes semânticas
de cheiros e desejos
procura-se um par.

Separados e a parte
a diáspora insana
monta um pequeno
poema de amor.
(Marcia Araujo)

domingo, 29 de abril de 2012

Desamor

Lágrimas umedecem a pétala da flor
cuja textura acamurçada escurecida
já não sustenta a vida.
Seu viço lhe foi arrancado,
a cor apagada.
A dor que não conhecia
brota aos poucos
afogada no pranto.
Uma a uma pétalas
se desmancham
como em desencanto.
Esvai-se a vida
sem lamento.
Impotente sente
a curva do tempo
a perenidade
o desamor.
Que triste experiência
a existência lhe reservou.
Pobre flor
perdeu seu amor.
(Marcia Araujo).

domingo, 22 de abril de 2012

Reflexo

Oculta sob uma película
vive a imagem reflexa
da vida.
Do sopro aspirado do ar
nasce o sentimento,
da sobra o experimento.
Dois mundos se põe a conversar
um deles manipulável,
o outro inexplicável.
O primeiro inspira o que espalho,
o segundo espelha no universo
a imagem do meu reflexo.
(Marcia Araujo).

domingo, 15 de abril de 2012

Distante

Distante, solto no espaço
divaga o pensamento,
contempla.
Naquele atmo de tempo
experimenta o olhar
um passeio, se afasta,
nada procura alterar.
Um, dois, três mergulhões amparados,
imóveis se equilibram no vento,
alheios também ao momento.
Evocado,
o pensamento se faz espectador,
sem  inferir à imagem sua presença
que se abastece engenhosamente
do olhar.
(Marcia Araujo).

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Poesia

Poesias etéreas sugerem riqueza,
falam de beleza
sem tocar o chão.
Poesias inventadas
provocam sonhos, ilusões.
Poesias cantadas
são rimadas,
suavizam a expressão.
Poesias emolduradas
perdem a graça,
a razão.
Poesia boa
não se rende à toa.
Como se faz poesia?
(Marcia Araujo).

domingo, 8 de abril de 2012

Maltrapilho

Espaço entrecortado
Curvas escorregadias
Vielas acinzentadas.
Corredores preto e branco
Portas entreabertas
Rumores vazam.
Vagando anda
Portas ecoam
Perdido se aprisiona.
Atravessa um vão
Trilhos se sobrepõem
Armadilhas do labirinto.
Levita em fuga de contato
Transpassa mundos
Alcança portais.
Pensamentos disformes
Um vento sopra
A mente jaz, exausta.
Ergue um pensamento
Abaixo outro
Direção contrária.
Cansa
Acomoda-se
Encolhe as pernas.
Espreita o pior
Sombras se esgueiram
Fantasmas rodeiam.
Maltrapilho
Sujo
Confuso.
(Marcia Araujo).

Rumo

Tenho andado diferente,
Uma dança, um ritmo, um istmo.
Tenho andado poeta, metida, artista.
Sentindo-me assim meio gente,
Encontrei o mundo, a mente.
Tem gente, tem cor, tem sabor.
Tem tanta coisa,
tem cheiro, tem flor.
Dá rima, mas é rumo.
(Marcia Araujo).

Dor

A vida sem explicação se deteriora,
devagar se vai embora.
Celebrar o quê
sem entender.

A gente é pequeno,
tão pequeno
que não alcança.

Dói na alma
perder o convívio.
A gente respira
sem alívio.

É tão mais fácil
estar junto
segurar na mão.

Se doar e receber,
trocar, dar,
comungar, conviver.

E quando perde
o que fazer.
Se resignar,
aceitar.

Chorar sem fim
até parar.
Meditar.

Tentar contemplar
a vida perene.
Compreender
essa luta,

de gente.

Escrevi isso para Mequinha que cada dia vai embora um pouquinho. Mulher de fases, de luta, de erros e acertos, humana como todos nós. Vive com força cada segundo do tempo que lhe resta, luta contra sua natureza humana, reage, se impõe. É mais uma de quem aos poucos o fim do ciclo se aproxima. Que toda boa energia a acompanhe na próxima jornada, que seus irmãos de convívio que pela sua vida já passaram a recebam de braços abertos para oferecer-lhe descanso e amor. Que suas dúvidas humanas sejam perdoadas, suas investidas pesadas. Que o amor que dispensou nessa vida tenha maior força que toda força contrária que a nós se apresenta nessa jornada. Que a força agregadora de nossa alma esteja presente por toda a eternidade em sua companhia. Se há outra vida que seu parto seja só alegria. Nós ficaremos por aqui  tia América, saudosos.
(Marcia Araujo).




Conto de fadas

As x quero só apagar a luz,
cessar o barulho,
me recolher dentro de mim.
Penetrar o mundo que vejo em flashes, abstrato.

Não conheço as saídas,
nem as bifurcações.
Não tem guia
como em João e Maria.

Queria estar nele
de noite e de dia.
Entrar e sair
sem correria.
(Marcia Araujo).

Compromisso

Sentir a chuva sem me molhar
Por trás de um vidro
Só pra admirar.
Cair no vácuo
Sem me machucar
Ficar por lá
Vadiar.
Caminhar no ar
Lavar a alma
Descansar.
Escrever sem ler
Falar sem dizer
Pensar sem me cansar
Um novo ar pra respirar.
(Marcia Araujo).

Imperfeições

Procuro as imperfeições
estou cheia das certezas.
Amo os desencontros
as inconstâncias,
as esquisitices,
o incomum.
(Marcia Araujo).

sexta-feira, 6 de abril de 2012

As sombras

Na sincronia das passadas,
pernas e passos se confundem.
Sombra e perna se entrelaçam,
se tropeçam, se atropelam.
A sombra é rápida,
se esgueira, sorrateira.
Passa a frente,
gira no entorno
contrária a força
que a retém e expulsa.
Ora é um fardo pesado,
cansado.
Ora um pique alegre,
de gato e rato.
Corre atrás do seu pedaço
mas haverá certa ordem?
A sombra na frente
alcança aonde não chega.
Ouve o que vai ao longe,
enxerga o que não se vê.
A sintonia está no desencontro,
no descompasso, no descaso
entre uma e outra,
ambas sombras
uma da outra.
(Marcia Araujo).

sábado, 31 de março de 2012

Tempo

Há quanto tempo não nos falamos, as horas passam rápido demais, quase sem tempo de notarmos que o tempo se vai.
Num instante tudo parece nublado e no seguinte o céu se abre dentro da sua cabeça e você se pergunta, porque, praque, praonde?
E a gente continua indo adiante, avante.
Um rumor instável se aproxima, dissipo-o com firmeza e a cabeça lateja.
Na esquerda um bailado risca meu pensamento,
e rio comigo mesma.
A práxis chama, me enredo novamente em meio a dilemas.
Nós se atam e se desatam.
Já não uso as mãos,
Cadê o dia, a noite, o sol, a lua,
São como porta-retratos expostos ao alcance dos olhos
mas longe do coração.
As flores, estas sim ao alcance,
me levam a andar pelo jardim.
Espio como pela luneta uma outra vida, distante.
Um caleidoscópio gira minhas emoções
e eu as amparo com minhas mãos.
(Marcia Araujo).

Grupo

Antes que o tempo diminua a força deste momento resolvi postar.
Postar a força desta turma.
Celebrar sua diversidade e sua igualdade.
Postar meu prazer de cada dia.
Registrar que sem cada um de vocês a turma 2010 não seria.

Queria ser poeta e escrever belas palavras.
Queria tocar seus corações como me sinto tocada no meu.
Queria dizer a cada um a importância que tem na minha trajetória.
Queria dizer que vocês fazem parte da minha história.

Antes eu não era quase ninguém.
Antes eu não conhecia o mundo.
Antes eu tinha mais medos do que tenho agora.
Antes eu não tinha vocês.

Hoje eu tenho um pouco de cada um comigo.
Hoje eu choro e rio.
Hoje eu brinco sem freio.
Hoje eu tenho um amigo.

Com vocês aprendi a confiar.
Com vocês aprendi a errar.
Aprendi a ser gente.
Aprendi a amar.

Não troco nenhum por nada.
Com seus gestos,
com suas palavras,
aprendo onde estou,
a saber como sou.

E agora para fechar
um imenso beijo vou postar.
Carregado de vida, de troca, de paixão e de pulsão.
2010, obrigada!

Dedos

Já parou para observar seus dedos?
Percebeu nesse dia que sua unha era macho, o contorno perfeito e ela amoldada ao dedo que saía da mão como um prolongamento?
Eu poderia não reconhecer meus dedos de repente.
Se abaixar algum tirando-o do alinhamento, a unha rosada iluminada pela luz do abajur se torna mais feminina, mas o amarelado do contorno dela na ponta superior que se desprende do dedo só tem de belo a forma.
Eu teimo em retê-la, lixo, limpo por baixo com o pauzinho de laranjeira, mas ela teima em amarelar e com até ponderada imponência se arvora para fora do meu corpo.
Eu? Ah, eu não sei dar-lhes a liberdade que pedem, diminuo-as, acerto a forma, não as deixo crescerem, mas oculto um desejo de cobrí-las com outras artificiais, esteticamente perfeitas.
De tão limpas parecem brancas, se eu fizesse não as cobriria com esmalte para quando acendesse um cigarro admirá-las, e veria meus dedos diferentes, as longas unhas.
Imaginaria a mão de uma outra mulher, uma das outras que hospedo em mim.
Unhas delicadas, dedos expressivos, mãos firmes, frágil na aparência.
Não são mãos que trabalham a terra, já tão distantes da suavidade de quem ainda é capaz de fechar os olhos e alisar um travesseiro macio.
Fechei os olhos.
Abri-os dentro de mim.
Não vejo meu sangue, minhas grossas veias, os tubos que percorrem meu corpo.
Meus holofotes iluminam o invisível.
Como uma hospedeira abri as portas para toda gente.
Tem mulher magra, ossuda, essas têm dedos longos, unhas brancas e finas.
Suas extremidades são como molduras naturais ajustadas à carne sem sobras nas juntas, delicadas.
Parecem envoltas em voal, quando se movem não noto seus corpos, é sua sombra sem peso que atrai minha imaginação.
Hospedei também muitos meninos.
As vezes tomavam a minha voz, se faziam donos da hospedagem.
Habitaram comigo por longos períodos.
Suas unhas?
Ah, eram como se fossem unha e carne uma coisa só, não fazia diferença se estreitas ou largas, macho ou fêmea.
Mas um dia conheci um menino de dedos finos, mão longa, belíssimas unhas, nossa, que unhas, quase femininas.
Desses não hospedei, gostava quando me visitavam.
Sempre fui de receber inúmeros visitantes em minha pousada, alguns só de passagem, outros se instalaram por algum tempo.
Os meninos são mais brutos, não perdem tempo na hospedagem, é pequena de espaço para eles, preferem um mundo sem portas, sem janelas, camas sem donos, são egoístas.
Coabitam-se, sobem-se, pisoteiam-se.
Não, meninos não são para mim.
Gosto de meninas, meninas mulheres.
Mulheres comunicam-se com os olhos, mulheres se lêem em voz silenciosa.
Mulheres vivem dentro de si, habitam em muitos mundos.
Em cada uma delas existe um pedaço de mim.
São sutis, se tocam sem as mãos, as mãos são só suporte para as unhas.
E as outras, as outras mulheres?
Sou quase todas, prefiro as de firma delicadeza, as que não se deixam penetrar por todas.
Enriquecem meus momentos.
Gosto das vazias, das leves, das soltas, das intelectuais, das loucas, mas gosto mais mesmo daquelas que não se revelam todas porque recusam limitarem-se ao que já sabem de si. 
Estas são as que mais me interessam.
São todas as mulheres que sou.
(Marcia Araujo).