domingo, 29 de abril de 2012

Desamor

Lágrimas umedecem a pétala da flor
cuja textura acamurçada escurecida
já não sustenta a vida.
Seu viço lhe foi arrancado,
a cor apagada.
A dor que não conhecia
brota aos poucos
afogada no pranto.
Uma a uma pétalas
se desmancham
como em desencanto.
Esvai-se a vida
sem lamento.
Impotente sente
a curva do tempo
a perenidade
o desamor.
Que triste experiência
a existência lhe reservou.
Pobre flor
perdeu seu amor.
(Marcia Araujo).

domingo, 22 de abril de 2012

Reflexo

Oculta sob uma película
vive a imagem reflexa
da vida.
Do sopro aspirado do ar
nasce o sentimento,
da sobra o experimento.
Dois mundos se põe a conversar
um deles manipulável,
o outro inexplicável.
O primeiro inspira o que espalho,
o segundo espelha no universo
a imagem do meu reflexo.
(Marcia Araujo).

domingo, 15 de abril de 2012

Distante

Distante, solto no espaço
divaga o pensamento,
contempla.
Naquele atmo de tempo
experimenta o olhar
um passeio, se afasta,
nada procura alterar.
Um, dois, três mergulhões amparados,
imóveis se equilibram no vento,
alheios também ao momento.
Evocado,
o pensamento se faz espectador,
sem  inferir à imagem sua presença
que se abastece engenhosamente
do olhar.
(Marcia Araujo).

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Poesia

Poesias etéreas sugerem riqueza,
falam de beleza
sem tocar o chão.
Poesias inventadas
provocam sonhos, ilusões.
Poesias cantadas
são rimadas,
suavizam a expressão.
Poesias emolduradas
perdem a graça,
a razão.
Poesia boa
não se rende à toa.
Como se faz poesia?
(Marcia Araujo).

domingo, 8 de abril de 2012

Maltrapilho

Espaço entrecortado
Curvas escorregadias
Vielas acinzentadas.
Corredores preto e branco
Portas entreabertas
Rumores vazam.
Vagando anda
Portas ecoam
Perdido se aprisiona.
Atravessa um vão
Trilhos se sobrepõem
Armadilhas do labirinto.
Levita em fuga de contato
Transpassa mundos
Alcança portais.
Pensamentos disformes
Um vento sopra
A mente jaz, exausta.
Ergue um pensamento
Abaixo outro
Direção contrária.
Cansa
Acomoda-se
Encolhe as pernas.
Espreita o pior
Sombras se esgueiram
Fantasmas rodeiam.
Maltrapilho
Sujo
Confuso.
(Marcia Araujo).

Rumo

Tenho andado diferente,
Uma dança, um ritmo, um istmo.
Tenho andado poeta, metida, artista.
Sentindo-me assim meio gente,
Encontrei o mundo, a mente.
Tem gente, tem cor, tem sabor.
Tem tanta coisa,
tem cheiro, tem flor.
Dá rima, mas é rumo.
(Marcia Araujo).

Dor

A vida sem explicação se deteriora,
devagar se vai embora.
Celebrar o quê
sem entender.

A gente é pequeno,
tão pequeno
que não alcança.

Dói na alma
perder o convívio.
A gente respira
sem alívio.

É tão mais fácil
estar junto
segurar na mão.

Se doar e receber,
trocar, dar,
comungar, conviver.

E quando perde
o que fazer.
Se resignar,
aceitar.

Chorar sem fim
até parar.
Meditar.

Tentar contemplar
a vida perene.
Compreender
essa luta,

de gente.

Escrevi isso para Mequinha que cada dia vai embora um pouquinho. Mulher de fases, de luta, de erros e acertos, humana como todos nós. Vive com força cada segundo do tempo que lhe resta, luta contra sua natureza humana, reage, se impõe. É mais uma de quem aos poucos o fim do ciclo se aproxima. Que toda boa energia a acompanhe na próxima jornada, que seus irmãos de convívio que pela sua vida já passaram a recebam de braços abertos para oferecer-lhe descanso e amor. Que suas dúvidas humanas sejam perdoadas, suas investidas pesadas. Que o amor que dispensou nessa vida tenha maior força que toda força contrária que a nós se apresenta nessa jornada. Que a força agregadora de nossa alma esteja presente por toda a eternidade em sua companhia. Se há outra vida que seu parto seja só alegria. Nós ficaremos por aqui  tia América, saudosos.
(Marcia Araujo).




Conto de fadas

As x quero só apagar a luz,
cessar o barulho,
me recolher dentro de mim.
Penetrar o mundo que vejo em flashes, abstrato.

Não conheço as saídas,
nem as bifurcações.
Não tem guia
como em João e Maria.

Queria estar nele
de noite e de dia.
Entrar e sair
sem correria.
(Marcia Araujo).

Compromisso

Sentir a chuva sem me molhar
Por trás de um vidro
Só pra admirar.
Cair no vácuo
Sem me machucar
Ficar por lá
Vadiar.
Caminhar no ar
Lavar a alma
Descansar.
Escrever sem ler
Falar sem dizer
Pensar sem me cansar
Um novo ar pra respirar.
(Marcia Araujo).

Imperfeições

Procuro as imperfeições
estou cheia das certezas.
Amo os desencontros
as inconstâncias,
as esquisitices,
o incomum.
(Marcia Araujo).

sexta-feira, 6 de abril de 2012

As sombras

Na sincronia das passadas,
pernas e passos se confundem.
Sombra e perna se entrelaçam,
se tropeçam, se atropelam.
A sombra é rápida,
se esgueira, sorrateira.
Passa a frente,
gira no entorno
contrária a força
que a retém e expulsa.
Ora é um fardo pesado,
cansado.
Ora um pique alegre,
de gato e rato.
Corre atrás do seu pedaço
mas haverá certa ordem?
A sombra na frente
alcança aonde não chega.
Ouve o que vai ao longe,
enxerga o que não se vê.
A sintonia está no desencontro,
no descompasso, no descaso
entre uma e outra,
ambas sombras
uma da outra.
(Marcia Araujo).